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A importância da economia circular

Redes de pesca recuperadas ao lado de pentes e cabides feitos de material reciclado em uma oficina costeira

A importância da economia circular

*por Sérgio Tutui

Por que repensar o modelo linear

Com recursos naturais finitos, por quanto tempo seria possível manter o modelo econômico linear, de extrair, transformar e descartar? Com base nesse questionamento, surge o conceito de economia circular, que consiste em reutilizar, reduzir e recuperar materiais e energia.

A pergunta continua atual porque ajuda a deslocar o foco do descarte para o planejamento de todo o ciclo de vida de um bem.

Em uma economia circular, o produto não termina sua trajetória no momento em que deixa de atender ao primeiro uso. Materiais, energia, conhecimento e infraestrutura podem ser considerados desde o início como partes de um fluxo que precisa ser melhor aproveitado. Essa visão muda decisões de projeto, de produção e de consumo e aproxima empresas, pesquisadores e usuários em torno de soluções capazes de reduzir perdas.

Os três pilares da economia circular

Apoiada em três pilares; que são eliminar resíduos e poluição, manter produtos em ciclo de uso e regenerar sistemas naturais, esse tipo de economia já está presente em nosso dia a dia. Como exemplo, podemos mencionar a reciclagem; com a transformação de resíduos, e a logística reversa; em que os materiais utilizados retornam ao processo produtivo ou são descartados de forma apropriada, tendo em vista a preservação ambiental.

Os três pilares funcionam de maneira integrada. Eliminar resíduos e poluição exige olhar para a origem das perdas e para os processos que as geram. Manter produtos em ciclo de uso significa ampliar sua durabilidade, recuperar componentes e encontrar novos destinos para materiais que ainda têm valor. Regenerar sistemas naturais lembra que a atividade econômica depende de solo, água, biodiversidade e energia e, portanto, deve contribuir para sua conservação.

Essa abordagem também pode orientar escolhas do cotidiano. Separar materiais para a reciclagem, devolver embalagens por meio da logística reversa e escolher soluções que reduzam o desperdício são atitudes que conectam consumo, produção e responsabilidade ambiental. Quando essas práticas encontram organização, pesquisa e mercado, deixam de ser ações isoladas e passam a formar cadeias de valor.

O exemplo das Olimpíadas de Tóquio 2020

Para entender melhor esse conceito, é possível analisar o caso do comitê de organização das Olimpíadas de Tóquio 2020, que tem criado diversas iniciativas sustentáveis. A Tocha Olímpica foi produzida com alumínio recuperado de alojamentos temporários das vítimas do tsunami de 2011. Além disso, as cinco mil medalhas serão produzidas a partir de metais coletados de dispositivos eletrônicos usados.

Em sua campanha, o comitê arrecadou, ao todo, 47 mil toneladas de dispositivos eletrônicos, como notebooks, videogames e celulares, que resultaram em 30 toneladas de ouro, 4 mil toneladas de prata e 2,7 mil toneladas de bronze. O caso mostra como um objeto descartado pode voltar a integrar uma cadeia produtiva quando existe mobilização para coletar, separar, transformar e dar novo significado aos materiais.

Mais do que um exemplo ligado a um grande evento, essa iniciativa ajuda a visualizar uma regra importante: a circularidade depende de coordenação. A coleta precisa encontrar a triagem; a triagem precisa encontrar a transformação; e o material recuperado precisa ter uma aplicação. Com planejamento, um resíduo deixa de ser visto apenas como custo e passa a ser avaliado também como oportunidade de inovação.

Negócios que aproveitam todas as etapas

A economia circular também traz a necessidade de um modelo de negócio que considere todas as etapas de um bem como uma oportunidade de novas formas de atuação no mercado e, consequente, reduzindo o desperdício ou de geração de resíduo.

Essa perspectiva favorece a criação de soluções que conectam eficiência operacional, pesquisa aplicada e novas possibilidades de receita.

Em vez de analisar somente a venda inicial, a empresa pode observar o que acontece antes, durante e depois do uso. A manutenção, a recuperação, a reutilização e o reaproveitamento de subprodutos entram no campo de decisão. Para o agronegócio, isso significa procurar formas de usar melhor os recursos, integrar atividades e transformar aquilo que seria perdido em insumo para outra etapa.

O resultado não é um modelo único. Cada cadeia produtiva precisa identificar seus materiais, seus fluxos e seus pontos de desperdício. A pesquisa tem papel importante nessa identificação, pois pode testar novas utilizações, avaliar processos e aproximar a solução técnica das necessidades do mercado. Essa conexão é parte do caminho para que a economia circular seja praticável e economicamente consistente.

O setor sucroenergético como referência

Exemplo disso é o setor sucroenergético brasileiro em que a cana-de-açúcar é cultivada com utilização reduzida de insumos, em virtude do controle biológico de pragas e adubação orgânica. Após a produção de açúcar e etanol, a vinhaça se torna fertilizante, enquanto o bagaço produz bioeletricidade.

O exemplo evidencia a conexão entre produção agrícola, indústria e aproveitamento de subprodutos. A cana-de-açúcar não é observada apenas pelo produto principal: seu cultivo e seu processamento formam etapas relacionadas, nas quais diferentes materiais podem retornar ao ciclo. A vinhaça, ao se tornar fertilizante, e o bagaço, ao produzir bioeletricidade, ilustram como o planejamento pode reduzir desperdícios e ampliar o valor extraído da mesma cadeia.

Essa lógica é especialmente relevante para o agronegócio porque a eficiência não depende apenas de produzir mais. Também depende de usar melhor os recursos disponíveis, reduzir perdas e criar conexões entre atividades. Para acompanhar outros conteúdos sobre inovação e sustentabilidade no setor, veja também o Agro2Business.

Pesca fantasma e manufatura reversa

Agora, voltando os olhos para os dejetos no mar, nós, da Fundepag, apoiamos a pesquisa do Dr. Luiz Miguel Casarini sobre a pesca fantasma, já que diariamente os petrechos abandonados, perdidos ou descartados no ambiente marítimo causam a morte de diversos animais, tendo impactos negativos tanto no âmbito ambiental como econômico.

Para evitar o problema, existem hoje diversas iniciativas nesse sentido, com destaque para a manufatura reversa das redes de pesca, que maximiza o ciclo de vida do material e que pode ser reutilizado para gerar cabides e pentes, por exemplo, além de moldes de telha para a construção civil. A proposta combina cuidado ambiental com capacidade de transformação: uma rede que deixou de cumprir sua função original pode ser encaminhada para uma nova etapa produtiva.

Um diferencial para as empresas que trabalham com esse insumo é a possibilidade de inserir lacres nas redes de pesca, o que permite a rastreabilidade e, consequentemente, possibilita a construção de uma narrativa de conscientização ambiental, gerando objetos de alto valor ambiental agregado (upcycling). A rastreabilidade ajuda a conectar origem, processamento e destino, tornando mais clara a história do material e fortalecendo a confiança na solução.

Pesquisa, indústria e novas aplicações

Para ampliar os benefícios econômicos e ambientais da manufatura reversa das redes, é necessário investir em pesquisas que possam analisar novas possibilidades para utilização do produto, fomentando a indústria de transformação de plásticos do Brasil, que já conta com mais de 10 mil empresas e emprega diretamente mais de 300 mil pessoas.

Investir em pesquisa, nesse contexto, significa investigar o material, suas características e seus possíveis usos com responsabilidade. Também significa criar pontes entre quem conhece o problema no campo ou no mar, quem desenvolve a tecnologia e quem tem condições de transformar a matéria-prima recuperada em um produto. A cooperação reduz a distância entre uma boa ideia e uma aplicação capaz de permanecer no mercado.

O potencial de novas aplicações não está separado dos benefícios ambientais. Quando a vida útil de um material é ampliada, a cadeia pode diminuir a necessidade de descarte e abrir espaço para produtos de maior valor ambiental agregado. Essa combinação é uma das forças da economia circular: a solução precisa responder ao desafio ambiental, mas também precisa ser pensada como atividade produtiva, com qualidade, rastreabilidade e continuidade.

Uma missão para as próximas gerações

Deixar um mundo melhor para as próximas gerações, apoiando o desenvolvimento de soluções inovadoras que aliem eficiência no agronegócio e respeito ao meio ambiente, é uma missão da Fundepag.

A economia circular oferece uma maneira concreta de aproximar esses dois objetivos, porque estimula a redução de desperdícios sem abandonar a busca por eficiência e desenvolvimento.

Os exemplos da reciclagem, da logística reversa, dos metais recuperados para as Olimpíadas de Tóquio 2020, do setor sucroenergético e da manufatura reversa das redes de pesca mostram que a mudança pode ocorrer em diferentes escalas. Em todos os casos, o ponto de partida é reconhecer que materiais e energia têm valor e que seu uso precisa ser planejado para além de uma única etapa.

Construir esse caminho requer participação de empresas, pesquisadores, institutos de pesquisa, hubs de inovação e sociedade. Requer também atenção às oportunidades que surgem quando uma dificuldade ambiental é tratada como um desafio de desenvolvimento. Ao apoiar soluções que mantenham produtos em ciclo, eliminem resíduos e regenerem sistemas naturais, a economia circular transforma responsabilidade em prática e inovação em compromisso duradouro.

* Sérgio Tutui é Diretor Executivo da Fundepag, instituição que conecta pesquisadores, institutos de pesquisa, empresas e hubs de inovação, pesquisador científico do Instituto de Pesca e Doutor em Zoologia pela UNESP e biólogo pela UFSCar.