Gordura animal: oferta durante a pandemia

ABRA garante oferta de gordura animal durante a pandemia da covid-19
A gordura animal ocupou um lugar estratégico na cadeia de abastecimento brasileira durante a pandemia da covid-19. O insumo podia seguir para a produção de biodiesel ou para a fabricação de sabões, saneantes e outros produtos de higiene. Neste contexto, a Associação Brasileira de Reciclagem Animal (ABRA) procurou esclarecer à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) que a oferta não deveria sofrer uma interrupção abrupta.
Mesmo em meio à toda turbulência causada pelo coronavírus não há risco de que falte gordura animal no mercado brasileiro. Seja para o mercado de biodiesel seja para o de produtos de higiene e limpeza. Quem garante é a Associação Brasileira de Reciclagem Animal (ABRA) num ofício enviado na semana passada à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
A manifestação procura responder a um questionamento que havia sido feito à agência reguladora pela Associação Brasileiro das Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes de Uso Doméstico e Uso Profissional (Abipla).
Entre grupos do setor de biodiesel chegou a circular a ideia de que as usinas de biodiesel reduzissem voluntariamente o uso de gorduras animais de forma garantir maior disponibilidade do insumo para a produção de sabões e outros produtos de limpeza necessários ao enfrentamento da pandemia.
A ABRA, no entanto, ressalta que a oferta de gordura animal não deverá ser afetada de forma mais substancial pelo combate ao novo coronavírus. “Destaca-se que não é esperada redução drástica na produção de gorduras de origem animal durante o período de combate ao novo coronavírus”, diz a nota da associação lembrando que as empresas ligadas à cadeia de produção de carnes estão incluídas entre as atividades essenciais listadas no Decreto Presidencial 10.282/2020.
Além disso, a nota pondera que a própria natureza da crise já tem se encarregado de direcionar uma parcela maior da gordura animal disponível para o mercado de higiene e limpeza uma vez que as políticas de quarentena adotados por estados e município vem reduzindo o consumo de diesel e, consequentemente, de biodiesel. Das 1.900 milhares de toneladas de gordura animal que foram produzidas no Brasil no ano passado, cerca de 705 mil toneladas foram para o setor de biodiesel e 520 para a indústria de higiene e limpeza.
Por que a gordura animal ganhou relevância
A gordura animal é um subproduto que pode ser recuperado, tratado e direcionado a diferentes aplicações industriais. Esse aproveitamento reduz desperdícios e conecta estabelecimentos de origem animal a cadeias que precisam de matérias-primas com especificações próprias. O resultado depende de coleta, processamento, armazenamento e transporte compatíveis com as exigências de cada comprador.
Em momentos de instabilidade, a importância desse fluxo fica mais evidente. A discussão não envolve apenas o volume produzido, mas também a capacidade de manter as operações funcionando, cumprir requisitos sanitários e fazer com que o produto chegue ao destino correto. A cadeia de reciclagem animal, portanto, atua como uma ponte entre a indústria de carnes e os setores de energia e limpeza.
O esclarecimento apresentado pela ABRA
O ofício mencionado no texto tinha uma função objetiva: responder à preocupação de que a demanda por produtos de higiene pudesse criar uma falta de gordura animal para o biodiesel. A posição da associação foi que a produção ligada à cadeia de carnes continuaria operando dentro do enquadramento das atividades essenciais citado no documento.
É importante ler essa manifestação em seu contexto temporal. Ela expressa uma avaliação feita no início da crise sanitária, quando governos, empresas e entidades setoriais tentavam antecipar gargalos. A garantia apresentada pela ABRA não elimina a necessidade de monitorar logística, contratos, preços, qualidade e eventuais restrições regionais. Ela indica, sobretudo, que a origem do insumo permanecia ativa e que havia alternativas de direcionamento.
Do subproduto à matéria-prima industrial
O aproveitamento começa na geração do resíduo e continua em várias etapas. O material precisa ser separado, recolhido e encaminhado para unidades capazes de fazer o processamento adequado. Depois, características como origem, umidade, acidez, estabilidade e condições de conservação ajudam a determinar sua utilização.
Rastreabilidade e qualidade fazem diferença
Para o fornecedor, registrar a origem e as condições de entrega facilita a negociação e dá previsibilidade ao comprador. Para a indústria, receber um insumo padronizado reduz incertezas na formulação e no planejamento. Por isso, a comercialização não deve ser vista apenas como uma venda pontual: ela envolve especificação técnica, regularidade, documentação e confiança entre as partes.
O possível redirecionamento para higiene e limpeza
A pandemia elevou a atenção sobre itens de limpeza e saneamento. Quando uma parcela da atividade econômica diminui, outras necessidades podem ganhar prioridade. No caso descrito pela ABRA, a retração do consumo de diesel e biodiesel durante as medidas de quarentena poderia liberar parte da gordura animal para aplicações relacionadas à higiene.
Esse movimento é melhor compreendido como um ajuste de alocação. A mesma cadeia pode atender mercados diferentes, desde que o produto tenha as características requeridas e que o transporte seja viável. A migração de volumes não acontece automaticamente: depende de contratos, capacidade industrial, especificações e decisões dos agentes responsáveis pela compra e pelo processamento.
Biodiesel e higiene: mercados conectados
O caso também mostra como energia e produtos de limpeza podem compartilhar uma base de matérias-primas. O biodiesel utiliza insumos que precisam ser processados e transformados segundo padrões próprios. A indústria de higiene e limpeza também depende de ingredientes e componentes compatíveis com suas formulações. Em ambos os casos, a previsibilidade da oferta ajuda a reduzir interrupções.
Essa conexão torna o planejamento mais relevante. Uma usina pode rever a combinação de insumos; um fabricante pode avaliar alternativas aprovadas para sua formulação; e um fornecedor pode buscar compradores em mais de um segmento. Nenhuma dessas escolhas deve ignorar a qualidade ou a regulamentação, mas a diversificação de destinos pode aumentar a resiliência comercial.
O papel da regulação na continuidade do abastecimento
A ANP aparece no texto porque participa do ambiente regulatório relacionado aos combustíveis. Em crises, a comunicação entre entidades setoriais e órgãos públicos ajuda a transformar dúvidas em informações para o mercado. O diálogo não substitui normas ou fiscalização, mas pode melhorar a coordenação e evitar decisões baseadas apenas em rumores.
Também é prudente separar uma declaração institucional de uma previsão universal. A disponibilidade nacional pode coexistir com desafios locais de frete, armazenamento ou acesso a fornecedores. Assim, empresas que dependem de gordura animal devem acompanhar seus próprios estoques, fornecedores homologados, prazos de entrega e planos de contingência.
Logística e contratos em períodos de crise
A continuidade da produção não garante, sozinha, que o produto estará no lugar certo. Restrições de circulação, mudanças de turno, menor disponibilidade de transportadores e alterações na demanda podem afetar o fluxo. Uma gestão cuidadosa considera rotas alternativas, pontos de recebimento, capacidade de armazenagem e comunicação rápida com parceiros.
Contratos claros ajudam a reduzir conflitos. Eles podem definir especificações, tolerâncias, frequência de coleta, responsabilidades pelo transporte, critérios de aceitação e procedimentos para divergências. Quanto mais sensível for a aplicação final, maior a importância de alinhar os requisitos antes do embarque.
Oportunidades para a cadeia agropecuária
Para quem gera resíduos e subprodutos de origem agropecuária, a principal oportunidade está em transformar um material de baixo aproveitamento em uma fonte de receita organizada. Isso exige separar corretamente os fluxos, conhecer a qualidade disponível e apresentar informações que permitam ao comprador avaliar o produto.
Para quem compra, ampliar a rede de fornecedores pode trazer flexibilidade, mas a busca deve ser acompanhada por critérios técnicos e comerciais. Preço é apenas uma parte da decisão. Regularidade, conformidade, distância, prazo e capacidade de atendimento também influenciam o custo total e a segurança da operação.
O que permanece como aprendizado
O episódio reforça que cadeias circulares têm valor estratégico quando conectam resíduos, indústria e necessidades essenciais. A gordura animal não é apenas um descarte a ser removido: quando corretamente processada, pode participar de diferentes cadeias produtivas. Em situações de crise, essa versatilidade pode apoiar ajustes de mercado e reduzir a pressão sobre um único canal de demanda.
O aprendizado vale para outros períodos de incerteza. Mapear subprodutos, manter registros, construir relacionamentos comerciais e acompanhar mudanças regulatórias melhora a capacidade de resposta. A combinação de planejamento e transparência permite que decisões sobre direcionamento sejam tomadas com mais segurança.
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