Pular para o conteúdo
ANUNCIE AQUI

Subprodutos da mandioca na alimentação de bovinos

Bovinos saudáveis consumindo ração com subprodutos de mandioca em cocho de confinamento

Características nutricionais e uso de subproduto na alimentação de bovinos

Subproduto da indústria de fecularia

O processamento industrial da mandioca gira em torno de dois produtos principais: a farinha e o amido, também chamado de fécula. Essa fabricação gera uma quantidade expressiva de resíduos — sólidos, como cascas, descartes e bagaços, e líquidos, como a manipueira e a água usada na lavagem das raízes. Bem aproveitado, esse subproduto na alimentação de bovinos se torna uma alternativa de baixo custo e mais sustentável para o produtor.

O problema é que, quando descartados no meio ambiente sem tratamento, esses resíduos podem causar sérios problemas de poluição: além da elevada carga orgânica, carregam um composto capaz de gerar cianeto, tóxico para praticamente todos os seres de respiração aeróbia. Por isso, alternativas como a alimentação animal, a adubação e a produção de biofertilizantes vêm ganhando espaço como forma de reduzir esse impacto ambiental negativo.

Como os subprodutos da mandioca são obtidos

Na industrialização da mandioca predominam dois processos: a fabricação da farinha de mesa e a extração da fécula. Ambos geram resíduos sólidos e líquidos.

Os resíduos líquidos correspondem à água usada na lavagem das raízes e à manipueira — a água de constituição da raiz, extraída na prensagem da massa ralada durante a produção da farinha — além da água usada na extração da fécula.

Esses resíduos têm composição variável, mas apresentam alto potencial poluente pelo elevado teor de matéria orgânica. Já os resíduos sólidos do processamento das raízes — casca, raspa, farelo de varredura e parte aérea — são os que interessam à alimentação de bovinos, e é neles que este artigo se concentra a partir daqui.

Como o processamento da mandioca usa grande quantidade de água, esses subprodutos saem com umidade bastante elevada, o que torna a secagem uma etapa necessária para elevar o teor de matéria seca.

Essa secagem pode ser artificial, com o uso de estufas, ou natural, ao sol. Em qualquer um dos casos, ela facilita o armazenamento e a conservação do material.

Composição bromatológica dos subprodutos

A composição nutricional dos resíduos da mandioca varia bastante, por isso este texto trata apenas dos subprodutos de maior volume e de composição mais homogênea. De modo geral, a mandioca e seus subprodutos representam uma excelente fonte energética para os animais, podendo substituir o milho na alimentação de ruminantes — o que é especialmente interessante diante da constante oscilação de preços desse cereal.

Na prática, a mandioca pode ser oferecida aos bovinos de várias formas: raízes frescas, restos culturais (hastes e folhas) e subprodutos sólidos, como cascas, entrecascas, descartes e farelos. Apesar do potencial como alimento energético, ela ainda é pouco explorada na produção de rações. Além da raiz em forma de raspa, existem vários resíduos da industrialização que também podem entrar na dieta animal (Souza & Boin, 2002).

O valor energético da farinha de mandioca para bovinos é semelhante ao do milho, o que reforça o potencial da mandioca e de seus subprodutos como substitutos do cereal em dietas para ruminantes.

Parte aérea da mandioca

A parte aérea corresponde a cerca de 50% do peso total da planta e é formada por folhas, hastes e pecíolos, com teor médio de proteína de 16%.

Cerca de 20% dessa parte aérea é reservada para o replantio. Por isso, recomenda-se usar na alimentação apenas o terço superior da planta, deixando a porção mais grossa e lenhosa para a multiplicação. Assim como acontece com as forrageiras, plantas mais velhas tendem a ter menos proteína, mais fibra e, consequentemente, menor digestibilidade.

Essa queda de qualidade está ligada, principalmente, à menor proporção de folhas em relação ao caule: as folhas têm em média 25% de proteína e 9% de fibra, enquanto o caule fica em 11% e 25%, respectivamente. Ou seja, quanto maior a proporção de folhas, melhor a qualidade nutricional do material.

Além do valor energético ligado ao amido, as folhas ainda apresentam um teor considerável de extrato etéreo, entre 5% e 7% na matéria seca.

A proteína da parte aérea se destaca pelo alto teor de lisina (7,2g/100g de proteína), mas os valores de metionina são baixos (1,7g/100g de proteína) frente às exigências dos ruminantes.

Ainda assim, o conteúdo de aminoácidos essenciais é, de modo geral, igual ou até superior ao das leguminosas, e os minerais de maior contribuição são o cálcio e o fósforo.

Casca da mandioca

Segundo Marques et al. (2000), a casca de mandioca tem teores elevados de FDN e FDA e baixo teor de amido, já que é formada principalmente por elementos estruturais da planta.

Apesar disso, Martins et al. (2000) compararam casca de mandioca e milho como fontes energéticas — associadas a farelo de algodão ou levedura — na dieta de novilhas de corte, e observaram maior digestibilidade dos nutrientes da casca em relação ao milho.

Farelo de raspas

As raspas resultam da seleção das raízes e correspondem basicamente à raiz integral — polpa e casca juntas.

Esse material passa por picagem e desidratação, ao sol ou em estufa, e, depois de desintegrado, se transforma no farelo de raspas, que apresenta teores intermediários de FDN, FDA e amido.

Farinha de varredura

A farinha de varredura surge como subproduto da fabricação do amido, da farinha de mesa e da farinha de raspas: é todo o material que cai no chão durante o processo, somado ao resíduo do lavador, depois seco e moído.

Por causa da terra que acaba se misturando, essa farinha costuma ter coloração mais escura. Estima-se que entre 3% e 5% da mandioca usada na fabricação da farinha se perca nessa forma.

Farelo de bagaço

O farelo de bagaço é o resíduo sólido da extração da fécula: material fibroso da raiz que ainda carrega parte do amido não extraído no processamento físico. É um resíduo mais grosseiro, obtido depois da segunda peneiragem, e costuma ser seco ao sol em seguida.

O bagaço pode representar entre 10% e 20% do peso das raízes usadas na produção de fécula, com teor de amido que chega a 60%. Na forma úmida, esse subproduto tem cerca de 75% de umidade, reflexo do grande volume de água usado na extração da fécula.

Fatores limitantes para a nutrição animal

A mandioca contém dois compostos químicos, os glicosídeos linamarina e lotaustralina, que dão origem ao ácido cianídrico (HCN). Os efeitos tóxicos desse composto podem causar danos neurológicos crônicos e, em casos mais graves, levar o animal à morte.

Acredita-se que o HCN age por sua afinidade com o ferro (Fe): ele reage com a hemoglobina e forma a ciano-hemoglobina, o que impede o transporte de oxigênio para os tecidos e leva o animal à asfixia.

Oke (1964), citado por Pedroso et al. (2006), estabelece a dose letal em 1mg de HCN por kg de peso vivo. É esse limite que serve de base para classificar a toxidez da mandioca conforme seu conteúdo de HCN.

As raízes costumam ser classificadas como mansas ou bravas, havendo ainda as variedades doces, que praticamente não apresentam os precursores do composto tóxico.

  • Não tóxicas: menos de 50mg de HCN/kg de raízes frescas.
  • Pouco tóxicas: de 50 a 80mg de HCN/kg de raízes frescas.
  • Tóxicas: de 80 a 100mg de HCN/kg de raízes frescas.
  • Muito tóxicas: mais de 100mg de HCN/kg de raízes frescas.

Os compostos cianogênicos não se distribuem de forma uniforme pela planta. As folhas concentram os maiores teores, e, nas raízes, o córtex (a casca grossa) apresenta concentração maior que a polpa.

A concentração de HCN também varia com a idade da planta — quanto mais nova, mais tóxica — além das condições do ambiente, solo e clima. A eliminação total ou parcial do HCN pode ser feita por diferentes métodos usados na industrialização, como a desidratação artificial acima de 40°C, a cocção em água ou a desidratação por radiação solar.

Quando o material é desidratado até atingir de 10% a 15% de umidade, o ácido cianídrico se volatiliza. Segundo Souza & Boin (2002), o método mais comum é deixar que as próprias enzimas da planta promovam a liberação do HCN após a maceração da raiz.

O aquecimento — ao sol ou em forno — e o tempo de exposição ao ar também favorecem essa liberação, embora partes aéreas secas à sombra percam HCN mais rapidamente. A extrusão, por sua vez, garante a destoxificação total, com hidrólise parcial do amido. Vale reforçar: a intoxicação por HCN só ocorre quando se fornecem raízes frescas, trituradas, logo após a colheita.

O armazenamento por 24 a 48 horas já resolve esse problema. Como a raiz de mandioca é rica em carboidrato e água, ela é altamente perecível e se torna inadequada ao consumo entre 2 e 3 dias após a colheita — por isso, transformá-la em raspas, que podem ser armazenadas sem problemas, é uma saída prática.

Segundo Silva et al. (2005), os resíduos de mandioca usados na alimentação animal ainda enfrentam uma limitação importante: a baixa padronização da composição bromatológica, resultado da falta de tecnologia nas indústrias processadoras, somada a uma qualidade sanitária inconsistente.

Consumo de matéria seca e níveis de substituição

Ainda são poucos os trabalhos científicos sobre o uso de resíduos de mandioca na alimentação de bovinos. Mas as informações disponíveis já mostram que essa prática é viável, inclusive como forma de substituir alimentos mais nobres, como o milho, na formulação das dietas.

De forma geral, os ruminantes aceitam bem a parte aérea da mandioca, seja fresca, ensilada ou fenada. Quando usada isoladamente, recomenda-se misturá-la com 50% de outros volumosos, e a introdução na dieta deve ser gradual, até que o animal se “adapte” ao novo alimento. Trabalhos sumarizados por Buitagro (1990) indicam que o uso da parte aérea da mandioca em bovinos em crescimento melhorou tanto o ganho de peso quanto a eficiência alimentar.

Em novilhos zebus confinados, a substituição do capim-elefante por forragem da parte aérea da mandioca em 25% e 50% resultou em ganhos 48% e 41% maiores, respectivamente, na comparação com dietas compostas só de capim-elefante. Já a adição de feno da parte aérea em substituição a 25% da palha de arroz elevou o teor de proteína bruta da dieta de 4,8% para 6,5%, melhorando de forma significativa a digestibilidade da palha de arroz.

Acima desse nível, porém, o teor de lignina sobe de 8,4% para 16,1%, sem ganho adicional em digestibilidade ou consumo de matéria seca — pelo contrário, a digestibilidade da fibra chega a diminuir. Ou seja: a parte aérea da mandioca eleva os teores de proteína da dieta, mas em excesso pode prejudicar a digestibilidade e o consumo dos alimentos, justamente pelo aumento do teor de lignina. Dietas com 100% de feno de mandioca podem, inclusive, reduzir tanto a digestibilidade da fibra quanto o consumo de matéria seca.

Revista Eletrônica Nutritime, v.5, n° 2, p.512-536, Março/Abril 2008.
Cristiane De Cássia Meneghetti
José Luiz Domingues
Foto: Confinamento São Lucas
http://nutritime.com.br/arquivos_internos/artigosBK/052V5N2P512_536_MAR2008.pdf