Uso da uréia na alimentação de ruminantes

Por que a uréia é usada na dieta
O uso da uréia na alimentação de ruminantes pode contribuir para fornecer nitrogênio aos microrganismos do rúmen e reduzir a dependência de parte das fontes de proteína verdadeira. Essa decisão, porém, não deve ser tomada isoladamente. A resposta do animal depende da qualidade da forragem, da oferta de energia fermentável, do consumo de matéria seca, da mistura do suplemento e do manejo diário. Por isso, a inclusão precisa fazer parte de uma formulação coerente, acompanhada por profissional habilitado.
O que acontece no rúmen
No rúmen, a uréia é convertida em amônia, que pode ser aproveitada pelos microrganismos quando há energia disponível para o crescimento. Esses microrganismos participam da transformação dos nutrientes da dieta em proteína microbiana, posteriormente aproveitada pelo animal. Quando a liberação de nitrogênio ocorre sem energia suficiente, parte da amônia deixa de ser incorporada e é convertida em uréia no fígado. Essa relação ajuda a explicar por que uma dieta aparentemente rica em nitrogênio pode apresentar aproveitamento insatisfatório.
Sincronização entre nitrogênio e energia
A sincronização não significa apenas misturar ingredientes no mesmo cocho. É necessário considerar a velocidade de fermentação dos carboidratos, a disponibilidade de fibra e o padrão de consumo ao longo do dia. Forragem muito madura, baixa ingestão ou falhas na homogeneidade da mistura podem limitar a utilização do nitrogênio não proteico. A avaliação da dieta completa é mais segura do que observar somente o percentual de uréia.
Benefícios possíveis para o sistema produtivo
Em condições adequadas, a uréia pode ser uma alternativa de custo para complementar dietas baseadas em forragens de menor valor proteico. Ela também pode ser útil em suplementos destinados a animais em crescimento, manutenção ou produção, desde que a formulação considere as exigências de cada categoria. O benefício econômico não está garantido pela simples substituição de um ingrediente: ele depende do preço relativo das matérias-primas, do desempenho obtido e da segurança do fornecimento.
Uréia comum e produtos de liberação controlada
Produtos de liberação lenta ou controlada procuram distribuir a disponibilidade de nitrogênio ao longo do processo fermentativo. Podem ainda apresentar diferenças de manuseio, higroscopicidade e aceitabilidade. Isso não elimina a necessidade de adaptação nem transforma o ingrediente em uma opção sem risco. A escolha deve considerar evidências para o tipo de animal, a dieta e o sistema de fornecimento adotado na propriedade.
Cuidados na formulação e no fornecimento
A uréia deve ser pesada, misturada e distribuída de maneira uniforme. Pontos de concentração no cocho aumentam o risco de consumo exagerado por poucos animais. Também é importante evitar que o produto fique acessível em local inadequado, que a mistura seja armazenada com umidade ou que alterações bruscas sejam feitas sem acompanhamento. Água limpa, rotina de cocho e observação do comportamento ajudam a reduzir falhas de manejo, mas não substituem o cálculo da dieta.
Adaptação gradual do rebanho
Animais sem contato prévio com a uréia precisam de adaptação progressiva, com incremento controlado até o nível planejado. A interrupção do consumo por alguns dias também merece atenção: o retorno não deve presumir que a adaptação anterior permanece integralmente válida. A equipe deve registrar o que foi fornecido, conferir o consumo e comunicar rapidamente qualquer mudança no lote.
Como interpretar a uréia no sangue, no leite e na urina
A uréia circulante e a N-uréia podem funcionar como indicadores auxiliares do equilíbrio entre proteína e energia. Um resultado isolado não identifica sozinho a causa de um desajuste. É preciso relacioná-lo ao consumo, ao estágio produtivo, à composição da dieta, à saúde do fígado e dos rins, ao intervalo entre alimentação e coleta e a outros dados do rebanho. A interpretação deve ser feita com histórico e, quando necessário, com avaliação laboratorial complementar.
Riscos de intoxicação por uréia
A intoxicação é uma emergência. Ela pode ocorrer quando há ingestão excessiva, erro de mistura, acesso direto ao produto ou fornecimento a animais sem adaptação. Os sinais descritos na literatura incluem salivação intensa, tremores, falta de coordenação, respiração acelerada e alterações gastrointestinais, podendo evoluir rapidamente. Diante de suspeita, o fornecimento deve ser interrompido e o médico-veterinário deve ser acionado imediatamente. Procedimentos terapêuticos e doses devem ser definidos por esse profissional, considerando o animal e a situação.
Prevenção e rotina de controle
Uma rotina simples reduz a probabilidade de erro: conferir a receita atual, calibrar balanças, identificar os ingredientes, registrar lotes, revisar a ordem de mistura e observar a uniformidade do suplemento. O responsável pelo trato precisa conhecer o procedimento e saber quem contatar em caso de dúvida. Mudanças de pasto, categoria, clima ou disponibilidade de insumos podem exigir uma nova avaliação nutricional. Mais informações práticas sobre planejamento podem ser organizadas junto ao conteúdo de nutrição de ruminantes.
Impactos no desempenho e no ambiente
O excesso de nitrogênio pode aumentar sua excreção e representar perda de eficiência do sistema. Também pode elevar a carga de nutrientes nos dejetos e dificultar o manejo ambiental quando não há planejamento para armazenamento e uso do esterco. A melhor resposta econômica e ambiental tende a vir do equilíbrio: oferecer o nitrogênio necessário, ajustar a energia fermentável e acompanhar indicadores de produção, saúde e reprodução, sem perseguir um número isolado.
Decisão técnica para cada propriedade
Não existe uma recomendação universal de inclusão que sirva para todos os rebanhos. A decisão deve respeitar a categoria animal, a matéria-prima disponível, a forma física do suplemento, o acesso ao cocho e a capacidade de monitoramento. Ao combinar planejamento, adaptação, mistura uniforme e resposta produtiva, o produtor pode avaliar se a uréia realmente cumpre o objetivo de complementar a dieta com segurança.
A uréia circulante tem sido utilizada como ferramenta para avaliar o equilíbrio de nitrogênio (N) nos ruminantes. Os níveis de uréia no animal são reflexos de dietas que apresentam excesso de compostos nitrogenados, deficiência de carboidratos fermentáveis, ou quando existe uma assincronia entre o aproveitamento da proteína e disponibilidade de energia no rúmen.
Segundo Gonzáles et al. (2000) bovinos alimentados com dietas pobres em energia mostraram valores altos de uréia no sangue. Em tais circunstâncias, ocorre elevação nos teores de N-uréia na corrente sanguínea, de tal modo que incide na elevação da excreção de uréia no leite e na urina, o que pode alterar as percentagens de nutrientes no alimento, no caso do leite.
O uso da uréia, sendo denominado como nitrogênio não protéico (NNP) tem sido utilizado em larga escala na dieta de bovinos tendo como finalidade redução de custos, muitas vezes sem afetar a produtividade e saúde dos animais (Figura 1).
Figura 1 – Bovinos alimentados com uso de uréia como parte da dieta.
No entanto, como resultado da utilização de dietas ricas em proteína verdadeira ou de NNP, são observadas elevadas concentrações de nitrogênio sendo excretado na urina. Deste modo, poderá haver comprometimento de índices reprodutivos, principalmente, quando os animais envolvidos são vacas de alta produção.
Pouco se sabe a respeito do exato mecanismo pelo qual a proteína afeta a reprodução de bovinos. Entretanto, quando os níveis de nitrogênio uréico sangüíneo, plasmático ou no leite estão acima de 19 a 20mg/dl há uma tendência de queda nas taxas de concepção (Butler, 1998).
Ainda, para otimizar o crescimento microbiano, busca-se sincronizar a liberação de nitrogênio não protéico com a degradação de carboidratos no rúmen. Alguns produtos com a premissa de aproveitamento lento e constante estão disponíveis no mercado, dentre eles o que podemos chamar de uréia protegida. Em trabalhos desenvolvidos por Gonçalves (2006) foram avaliados níveis de nitrogênio não protéico na fração de proteína bruta do suplemento e proporções diferentes de uréia comum e de liberação lenta para bovinos nelores machos recebendo dieta a base de feno de Brachiaria brizantha (Braquiarão) e 0,6% do peso vivo de suplemento. A substituição da uréia comum por uma de liberação controlada não afetou a percentagem de massa seca digestível da dieta e o consumo de massa seca.
Dentre as vantagens da uréia protegida destaca-se a melhora na aceitabilidade dos suplementos quanto utilizada como fonte de nitrogênio. Ainda, devido ao processo de extrusão, seu nível de higroscopicidade é menor que da uréia comum. Isto tende a facilitar a conservação e manuseio na confecção de misturas.
Em se tratando de intoxicação por ingestão de uréia, surtos desta intoxicação ocorrem após ingestão excessiva de uréia ou com moderadas quantidades sem prévio período de adaptação. Outros fatores, como tempo de ingestão e condições fisiológicas do animal também podem contribuir.
A dose tóxica é variável dependendo da adaptação prévia do animal, o tipo de alimento fornecido com a uréia e o estado nutricional do animal. Geralmente, em rações para ruminantes, a uréia não deve exceder a 3% da ração concentrada ou 1% da dieta total. Doses de uréia superiores a 0,44g/kg de peso vivo em animais em jejum podem ocasionar sinais clínicos e doses de 1-1,5g/kg levam a morte.
Os sintomas de intoxicação por uréia vão aparecer ao redor de 20-30 minutos após a ingestão, com tremores musculares e da pele, ranger dos dentes, salivação excessiva, contração das orelhas, não coordenação motora, respiração acelerada, micção e defecação freqüentes, dispnéia e morte.
Como tratamento, a utilização de ácidos fracos (vinagre ou ácido acético 5%, 3 a 6 L por animal adulto) além de baixar o pH, diminui a hidrólise da uréia e formam compostos como o acetato de amônia, o qual possui absorção limitada pelo epitélio. Ainda, é útil a administração de água gelada, cerca de 20 a 40 litros por animal e de aplicações endovenosas de soluções de glicose de maneira a elevar a glicemia.
De forma a evitar ou prevenir esse tipo de intoxicação, a adoção de um adequado período de adaptação do animal ao consumo de uréia é imprescindível. Para tanto, deve ser considerado o nível e forma e, principalmente, o nível de fornecimento da uréia, devendo o aumento ocorrer de maneira gradual.
A literatura salienta que o fornecimento seja de apenas 1/3 da quantidade total durante a primeira semana com aumento proporcional até a quantidade final. Outra informação é que animais já adaptados, mas que por algum motivo deixaram de consumir uréia por mais de 3 a 5 dias, devem passar por uma nova e necessária adaptação.
Para tanto, o uso da uréia é viável na substituição parcial da proteína verdadeira na alimentação de ruminantes, porém seu uso deve ser feito com responsabilidade. Sendo assim, os custos serão reduzidos e com certeza contribuirá para o sucesso dos diversos sistemas produtivos que se utilizarem desta importante ferramenta.
Referências
BUTLER, W.R. Effect of protein nutrition on ovarian and uterine physiology in dairy cattle. J. Dairy Sci., 81 (9): 2533-2539. 1998.
GONÇALVES, A. P. Uso de uréia de liberação lenta em suplementos protéico-energéticos fornecidos a bovinos recebendo forragens de baixa qualidade. Pirassununga. 2006, 80 f. Dissertação. Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo.
GONZÁLEZ, F.H.D. Uso do perfil metabólico para determinar o status nutricional em gado de corte. In: GONZÁLEZ, F.H.D.; OSPINA, H.; BARCELOS, J.O.; RIBEIRO, L.A.O. (Eds.) Perfil metabólico em ruminantes: Seu uso em nutrição e doenças nutricionais. Porto Alegre: Gráfica UFRGS, 2000.
Artigo de Luiz Carlos Vieira Junior, Doutorando em Zootecnia – FMVZ/UNESP/Botucatu-SP, Welton Batista Cabral, Doutorando em Agricultura Tropical /UFMT/Cuiabá-MT e Marco Aurélio Factori, Pós Doutorando em Zootecnia – FMVZ/UNESP/Botucatu-SP